Tuesday, January 24, 2006

O SABER

o saber alegre bate a palavra-pão
a cidade desenha-se em pó azul
então já não há nada para dizer
apenas o limbo cortante do silêncio
avanço nas linhas e nos lugares
da pedra seco, bato a batida dos dentes
onde a palavra salta, matriz unica

é o silêncio ainda que oiço
aqui rente ao chão do sol sem sombra
deitado na folha húmida onde bate o
dente até à entrenha do mar,sereno

José Gil

Sunday, October 02, 2005

Lusco - Fusco

“Rien n’est beau que le vrai, le vrai seul est aimable”
Boileau

Duelo epistolar ao lusco – fusco
À flor do esquecimento do ser
No limbo do fim da história
Em glória e esplendor nos
Decassílabos justos para a
Construção do pequeno
Templo. Só a loucura
É desprovida da palavra
Do ser esquecido nas vozes
Do deserto, no medo divino da
Fuga diária do planalto do poema
Quem quer ficar vazio sem o lusco
Fusco na sua tenaz marca poética da
Trópologica até que uma nova palavra
Entre nas ideias claras para o diamante da voz
Na sordidez do matagal da pedra azul para estilhaçar
A cortina da habitação do dia a dia. a manhã virá logo
José Gil

party on line

A Palavra Antiga

“no fundo aceitamos que nada temos que se encontre fora de nós próprios”
José Maria Garcia López


atravessa-ma a música do Paris Texas
um holograma de superfície clara
da escrita branca no hybris grego
quando chego forte ao mar e
me passeio no barco negro para
ver a elegância dos cavaleiros
do Nilo os mamelucos

ao som do arrabil e da viola
comendo em louça de Arezzo
e a beber vinho de Falerno
em busca de saphira e dos
actos da fala, nas centelhas
de Deus um exegeta do Talmute
caído no ponto mais ínfimo
com a canção de Leonardo Cohen
“Take this halls” na parábola judaica
Onde está tudo iluminado no
Gelo marítimo da Árctico no
Teu colo quente.

Saturday, October 01, 2005

Poemas do Baú

SEM TITULO I


deixa amor a mão caminhar
como um diamante de carne
muitas vozes juntas
para que algo aconteça quando
tudo fica de coração incompleto
o ar está cada vez mais leve
o amanhã é um desejo e por isso demora
Mar eu queria ser o mar e chorar como ele
bem dito o céu e o fado minha
é apenas a ave
e o ser dela as lágrimas das asas
seguram o azul no céu.
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Planura

o lábio é azul e creme sobre a areia fina
dos seios como a onda em três andamentos
um eixo redondo nas pontas
da maré. o movimento da ode a arder
confunde-se no pêndulo em crescendo, a água
espessa da solidão. Cristalina é para penetrar,
os morangos vermelhos caindo sobre a água
em lágrimas de alteridade feliz. Minha vida
é andar nos labirintos, eu sei por onde passo.
A vida encadeia-se em linhas melódicas
Viajo na consciência com a beleza de Vénus

Nas curvas redondas dos dedos e da língua.
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Ramais de cristal

Ao Constantino e ao Evónio


nesta balsa encontrei um búzio no meio
das ondas violentas mesmoao longe belas
são as montanhas até à parte mais distante
da terra lancei para lá o búzio como a noite caiu
nas escarpas inclinadas tão de repente e antes
que as águas alaguem a balsa. entrei na praia
rodando o corpo para dentro de mim, dentro
da minha idade quando já nem consegui pensar
e a voz do mar inundou o búzio
até ficar em pérola a voz mais pura dos poetas
nas mãos da terra leve para lavrar os sinos e os
torrões trabalhados no aço no fundo do torpor.
quando as árvores já nascem das mãos raízes
brilhantes e de púrpura do colo até aos dedos
como ramais de cristal e unhas
de romã, as tuas mãos tocam nas minhas espalham
em rede,espelham no céu o fogo das entranhas
perdidas nas estrelas de nuvem em nuvem onde
brilha a água pura. o silêncio dos homens à beira do ar.
a mão e o clarão da boca tocada por outra boca e os
dedos molhados na bárbara garganta e da esguia língua
que encontra as suas esmeraldas líquidas.

não escrevas sobre as aparências apenas
iluminamo essencial, mergulham no cata-vento
da superfície

só os cegos à noite podem receber a vibração
das essências onde as trevas são espasmódicas
geografias da pulsação no excesso da seda do tacto
mais invisível saltam pássaros do copo de água pelo lado febril
da mão que o segura, subo e desço na garrafa
da flor de anis transparente para todas as inspirações
os cavalos atravessam a folha suave, onde escrevios primeiros
versos na balsa da infância onde
as águias atravessavam o ecran e as projecta
no néon do modelo das searas.o perfume da flor de anis
fala como quem diz alma e a alma fala do seu próprio incêndio
para dentro onde toda a sua aprendizagem é tranquila como
a beleza eu jogo e jogo e estremeço, esqueço as coisas mais
evidenteso lugar da casa, o nome da mãe, o sinal do filho,
o assobio do pai, a música dos sinos da aldeia, o silvo do túnel
da fábrica

sobretudo o som infantil do mar.
dói-me o esquecimento como os ossos dos pés
é terrivelmente profunda a dor à boca da noite
o escuro estrutural da tardinha, quando já não
sei escrever o nevoeiro da manhã, face a face
com deus e os gritos e os grifos. o mundo é
a máquina dos poemas. o texto nasce à volta redondo
universo como a lembrar-me mãe, nasci uma quilha
de pássaro no peito. ainda vou voando, o ninho
ficou pequeno. ando de bicicleta nas pistas de alcatrão
verde. mordo os dedinhos brancos do mês na balsa
salvei-me e comi a última laranja do estio dos homens
as tuas pernas sensuais de mármore e o búzio do teu umbigo
sabe a mar tem o aroma do dia derretido na areia como
aroma das turfas e das açucenas da memória delicada.

Setúbal, 20 de Julho 2002
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Moinho de Maré II

quem te vê, vê na Cotovia no Convento da Madre de Deus
da Verderana, no parqueribeirinho do Seixal
nas barragens do funcho e da bravura O teu olhar é
como a pedra soltada muralha no moinho de maré
do cais das Falnas em seis rodízios.

quem te vê, vê na Igreja de Santa Maria do Castelo.

és o orago, no lago enas palmeiras procurando
o mínimo avanço possívelda água até à estátua de Kudu.
nos espaços perdidos da Gambia e do Farilhão,
aldeias de Madeira nas Praias do Sado ou no Parque
vermelho de Albarquel. comeremos amor, um queijo
de casca fina e maciacor amarela - palha de pasta
mole amanteigado no teu corpo de amarelo - ráfia.
Como as nuvens no céu
o amor já lá estava
naquele jardim de rosas
até na entoação da frase
"as clareiras onde queimam
as árvores" peço aos homens
comuns da terra
um mandato do céu.

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Matriz

No elocutio és o romanesco da romã
na trave o louro e a candeia, a nostalgia.
Situas-me no ajustamento das palavras
como uma matriz risível de mãos ausentes.
A presença das lágrimas na devastação
da angústia. Provoca a vertigem invisível.
Há um soluço por cada pesadelo.

O pathos é o patético sentimental.

A intensidade textual das esculturas
de agnórisis como um pastor da vereda

és a fábula teatral e suprema
quando a expiação do dia
confrange. Há chagas deste tempo.

Tuesday, September 13, 2005

o leitor

O LEITOR, O DESVIO E O SEU MAPA


“A dança, não vos dará nada em troca, nem um manuscrito a pôr de lado,nem um quadro para pendurar, nem poemas para imprimir e vender. Nada que não seja este instante único, fugitivo em que se sentem os vivos”
Mercê Cununnighan

passam as águas, deixam as portas abertas, onde
oiço o crescer dos sobreiros e guardo as margens
do papel para as dúvidas e tomo o Lugar (ou ganho
o juízo!) aqui no sótão da minha casa na Estefanilha
as amoras crescem em segredo no bosque próximo
e ganho o regador das plantas (a couve,o chá,o milho
a rosa),o telado sem um mastro central e um lençol ao
vento com o desenho bordado do meu corpo deitado
na arte da ocorrência, da sombra e do espelho negro
resta um leitor, um desvio e um mapa desactualizado
o onamismo dos diários íntimos e providenciais.


o leitor morde a desconstrução ,a reversibilidade
do movimento em espelho pintado de amarelo,
pela manhã,com um cavalo creme e branco,
momentos sagrados do acaso, para dançar sobre
um lago sem cisnes directos e o aquecimento global
a escalar ao longo dos muros, com a sombra do perfil
dio viajante como um sopro, um fluxo, o peso-leve
infiltrado no traçado dos carris da linha, os dois pés
bem no chão, nós não somos sempre o(s) mesmo(s)
num cenário vivente ,amamos o rebelde dos subúrbios
como um animal onde encontramos a nossa habitação
universal – “está-se bem!” –quando o leitor constrói
o outro poema.


JOSÉ GIL

Monday, September 12, 2005

A RAIZ

A RAIZ

ergueu-se a raíz
limpida e núa
a única possível
para a clara a alma
justa e transparente

raiz quente da terra
sem névoa no dia dos
abraços nos
braços do saxofone
da alma certa
sem pendulo nem
relógio. apenas
a música no centro
da vila e um berço
re-encontrado.

do mosteiro falará
a verde memória do
futuro,um anjo azul

o do dia de pedra no lugar
de pedra do adro da Igreja

e as pessoas quentes
no silêncio do acaso

uma varanda,uma mulher
a descrição das outras
manhãs longe do mar
na floresta profunda
dos sentimentos.

com a alma na mão
abrem-se os caminhos
a música constroi
um novo encontro
com o sol

jose gil

Sunday, September 11, 2005

rua das pedras

VIAGENS XXII - rua das pedras

Retrato de Salvador
Kittuit

“apressa-te lentamente”
Augustus, imperador romano

O folião é o sol a pino, passam verdes os ventos
onde ogan avança com a candura de um amor feliz,
na malha metálica em escamas preso aos quadris
em frevo no terreiro Oxum, Orixá o feminino das
fontes e dos rios por dentro do nosso oceanário.

As magnólias tocam o meu odor de pele lisa.

Vestido de abada oficial todo o ano para esbardar-se
nos trios eléctricos a comer acarajá de feijão frade
frito em dendé, um rectângulo de camarão e vadá

A viagem começa numa onda de batidas em
caixas de som e luz na fresca água da chuva e das
nascentes entre os pipocas e os cordeiros no eclipse
anelar do sol, sinto-me lansã, chega-se na encarnação
no bosque de tempestade, dos raios e dos ventos
na ausência das gaivotas

Avanço voluptuosamente e deslizo cruzando a água
de suor na praça da hortelã nas orelhas cantando
“Chuva, suor e cerveja” nos seus olhos cor de mel
lançando os búzios no seu colo conservando
o futuro dos oceanos como a dor dos solos secos.

Pedra Angular

Pedra Angular

Abre-me as portas, e as janelas do teu corpo
nas várzeas onde nasceu a sombra
sílaba a sílaba nas amoras constrói a dança
nocturna das flores como uma retórica
de atrito por uma poesia liquida,murcham
as flores pela manhã, no frágil num continente
à deriva na geografia do coração, ajuda
a caminhar o caminho para a
Marrié de Duchamp, a habitação dócil
que o novo corpo ergueu, a caliça
ainda fresca dos muros dos sentimentos
da tua pele, para o traço grosso do
nível erótico no desenquadramento da
emoção, pedra a pedra .

serenamente cria a luz instável das aves
a dança pós-moderna do poema no eclipse
do sol do teu estar até que a mão toque o chão.
” Toda a coisa recebida deve ser acrescentada”(1)
o movimento que já vi, a impossibilidade
de escrever o que vivi em diagonal rápida
numa estratégia compositiva da água da alma.

deixa-me entrar no teu corpo, o ser das
sombras, o umbigo verde e prata a pensar-se
instável no berço estreito que me pedes.
um piercing de Rodim, onde o vento rosa
esculpiria melhor o tempo rente à terra
como um inato das metáforas pesadas na rede
dos fios das meadas na gestualidade e
no vocabulário da tua avo – uma bailarina
entre o chão e o céu como Pina Bahus
na fonte vazia da constelação das pétalas
de uma buganvília na caravela rasa no
oceano dos verdes estridentes .

José Gil

INVENTÁRIO

INVENTÁRIO

a caliça vermelha e negra dos muros dóceis,amor
na árvore sensual e branca do universo,à noite
borda o humanismo justo.

José Gil

Cae Água

Cae Água

Ergui a casa contra o pó das orelhas na pulsão
do meio interior, a música transparente
do tronco da ternura fresca.

trabalho o sonho de um cavalo pintado
em S.Pedro do Estoril na anusia da
metamorfose pulsional onde evoca
a doçura da voz apriórica.

José Gil

poema de domingo

POEMA DE DOMINGO

Ao Félix

o café desce com vergonha, a rua
negra e o alcatrão de açúcar
pigmentos do mesmo tipo
que a textura de domingo

passa a varina de verão
traz os peixes solares
água, prata, algodão
toda a páscoa a ressurreição

saem da cave metamorfoses
dos lugares onde a fruta
se encontra novamente
com a terra num elefante
que ninguém quer decifrar

todo o céu te espera
todo o mar farta o fim
todos somos o abraço que falta
todo o ar se abre na água

José Gil / Constantino Alves

um titulo é outro poema

um titulo é outro poema

havemos hoje de ir ao mar
um titulo é outro poema
uma mensagem nasce na
maré mais solta que uma onda
de terra, a outra invade a rocha
e perde-se.

a cortina abre o teatro
o teatro é a perna e a mão
uma rosa perfilha um cravo
os passos dão-se lentos
como se dá o pão

jose gil / constantino alves

pomba

POMBA

o livro é o inicio da pintura
e uma sala plena de canetas
a musica, sempre alta
todo o som, toda a sala

posso sorrir ,a canção abafa
o próprio murmúrio de quem
está a sonhar.

na sala só livros,livros só,
eu sei que é pouco.ainda resta

uma pomba e um ponto final.

constantino alves / josé gil

o mar preso na liberdade

o mar preso na liberdade

Qual a luz que ilumina a parede?
Qual o disco que toca na sala?
Qual a palavra da boca rubra?

Qual a parede onde descanso
onde o musgo faz a História?
Qual a musica que a invade
da luz para a boca repetir?

Um lugar para o carro
outro para a ilusão

Uma gávea salta no barco
é o mar preso na liberdade
toda esta manhã é de chamas
toda a noite corre na água
até saltar o verbo amar

José Gil/ Constantino Alves

UMA MANHÃ

UMA MANHÃ

as aves brancas atravessam o brilho
no metal da manhã bate a luz no espelho
a chávena chega com grãos de letras
uma bica é um quarto, sala, cozinha
e wc na minha cabeça a cartola.

uma língua uma palavra.

um aperto de mão, uma fragrância
uma sólida construção.

habitamos devagar os lugares marcados
como mapas terrestres onde o dia azul
faz-se tempo e avança os caminhos.

viajo até que o sol se esconda
na rua mais clara da cidade.

CONSTANTINO ALVESJOSÉ GIL

VIAGENS XX - MARÉ NOSTRUM

VIAGENS XX - MARÉ NOSTRUM
Ou a traição da palavra



na carne o cume é o sol da palavra o território
é o teu corpo vivo em construção, o rosto rente
ao Caramulhinho em Viseu, por aqui a inútil
paisagem das canetas, dos livros e da mesa plana
para o amor sobre a madeira doce.

os pássaros coloridos de Óbidos cantam em limum
nos pomares do erótico junto à casa azul na árvore
perto do cabeço da neve numa fonte de deleite para os
Túrdulos “sunshine on your love”(1) na voz de Elsa
Fuiltzgerald que invade as curvas a seguir a Linhares
num tempo fértil para as estátuas de granito o meu
solo de violino num universo esmorecido desenho
fora do desenho num minimalismo repetitivo de um
octeto entre linhas na acidez da aparência visível
nas tuas pernas de serpente esmeralda no vento
a uivar a linguagem e outra humildade de recursos
uma romã a ferver nos cantos dos rituais dos monges
shinto e das suas batidas de flautas shakuhachi.

esqueço que os dias têm horas, beijo-te boca em boca,
no terreno fértil para as” memórias de pedra – tempo
caído”(2)na cápsula do vento no outro lado Alpedrinha
desde o chão até às ameias dos castelos casas frágeis em
cima de rochas num processo de discurso poético perto
da raia .uma obra desejada nos prazeres da balada da vida.

voo nas escarpas da serra, perto da antiga Egitânea junto
ao Tejo em Vila Velha de Ródão com as cerejeiras em flor
até á Guarda e escrevo-te na Rua do Amparo para a cantaria
do teu olhar na linguagem outra que a tudo obedece
pela unidade da textura. até à erosão das imagens
na praia da Aldeia Ruiva,um horizonte de escassez palavras
escritas no relógio solar do teu peito, três rosas depois
da chegada tudo é único num ritmo de saída para a
essência da lâmina no “ceptro de aerzis”(3) - ailura a rainha
da terras dos negros de luz na corporalidade de um “mar de
leite”(4) para as atmosferas de Ligeti onde viajamos pegadas
raras à mostra na arriba perto dos mamilos e da língua sem
respiração e ar no lentissimo amor. Vamos.

José Gil



(1) dos Cream
(2) Paulo Ribeiro
(3) Inês Botelho(4) José Saramago

RÉDEA SOLTA

RÉDEA SOLTA
OU ENTRELINHA

"(…) em vez da imagem
ter sempre uma imagem de fundo
e da arte(…)rivalizar com a natureza
todas as imagens nos reenviariam
para uma só a do meu olho vazio(…)"

Gilles Deleuze

a água é bonita ao ser atravessada pela luz, ouvem o wolkman
nos ouvidos para se isolar .sinto que vivo sem viver em mim
enquanto escrevo no café a olhar de soslaio
entre um pão com canela e chá de cidra
liberto-me pela escrita entre o ponto e a linha
numa teia de modus faciendi procurando fios
nos caminhos íntimos, plurifacetados na aparência
do vizinho, a língua como rosto,o corpo fala
e é falado num travelling ensombrado
de águas silenciosas para um poema diagonal
à memória apagada ou ao que dela perdura
escrever uma linha é ter uma ideia(1)
nas centelhas do acaso para uma fuga de joão sebastião
bach, uma escrita directa
em esboços à rédea solta como hiperónimos
e hipónimos, seres cindidos no mar da literatura
ineficável para romper os limites pictográficos
como antóninos e sinónimos, o tecido de uma lógica ofensiva.
o poema tem que nascer em qualquer lugar na representação controlada ou aberta
agora é que chegou a minha alegria, o novelo entre a acção
e o pensamento crítico “a cidade das flores”(2) palavras - paredes de água(3)
contra um pensamento plástico que desafia o leitor nas aparições, nos espectros e nos espíritos “a dor define a nossa vida toda”(4)
como nerónios e holónimos da felicidade desejada pela humanidade
ao pé do chafariz de dentro, como uma voz interior na terra do pó
e da pedra nas agruras das curvas dos rios para desenhar as estradas
do futuro só o amor num deserto tão movediço
no mar de néons da grande lisboa
a ver de minha sala.


José Gil

Grande Lisboa 9 de Setembro 2005:23:00
______________________________________________________________________
(1) adaptação livre de uma frase de Richard Sena
(2) Augusto Abelaira
(3) Ana Drago
(4) Caetano Veloso


José Gil
http://dialogosdogil.blogspot.com/

Thursday, July 28, 2005

Viagens IX

A MENINA DO CARROCEL

A Wensceslau de Morais (1854-1929)

danço azul a vida desde cedo com Atena
a menina do carrossel frente a Poseidon
o que vem nas ondas dos oceanos estáticos
como os corvos das bandeiras de Lisboa
os cronos das ilhas gregas a Nairobi
sempre quente pela noite adentro com
a minha iguana onde se canta com os filhos
o outro luar no mar - azul - turquesa junto
à aridez das ruínas. Remo no Rio Hozu
nas errâncias de Nagasáqui ao Teatro Díonisio
Brilhantina nem acredita e continua a viagem
do fascínio de Santa Arusi e Santa Atchan
da Torre dos Ventos ao Culto do Chá,
a taciturna da carcaça e da oração no Mosteiro
de Panaya Turliana na lógica perversa do
perfume de um café e do fumo de um Antaño
como Camilo Pessanha e os seus truímos
divinos em pedras frescas de amor.

José Gil
Em viagem

Eis o Meu Pássaro que Fala

eis o meu pássaro que fala
à rama húmida do teu cabelo
gosto de passar o pêssego
de uma mão para a outra
como os teus seios em leves
sinais e segurar a ameixa entre
os lábios, os caroços de ameixas
mordendo os dentes e recolhendo
à água da nascente.

quero-te como a pedra de Fléton
para quem persiste no amor
profundo.

As gaivotas já alinham
na tela da moldura da mesa
encostada ao mar do teu coração
esvoaçante.
os pincéis descansam nas suas
penas e as cores ternas do fogo
beatificam no aroma
de hortelã, o poema

sinto a quente brisa do sul
gosto do chilrear dos pássaros junto
à porta onde te espero
as cerejas já em calda alegram
o que é vivo e luminoso
a alva traz na boca a saudade
das maçãs do teu rosto
angular o teu corpo é redondo
a franja da tua montanha arável
a saia curta, andas e escrevo
sem olhar.

venho de bater à tua porta
ao maior abraço de uma folha
seca até ao berço do nascimento
os meus dias turbulentos inquietam-te
nas açucenas da tranquilidade
sereno passeio nas falésias como
a noite regressa .

os teus olhos têm silêncio, os braços não
das nuvens do meio têm mil águas
em baixo vou contemplando
o meu gosto pelo fruto dos cerais
alegremente confiando no luar
e no seu perfume de flor de manga
Íris desperta em mim as rosas da carne
Vermelhas como as papoilas,
amo nelas o vapor da água
inunda-me os braços e o rosto
humedece as pernas lentamente
do dia do trabalho mais feliz
a iluminação anuncia a espessura
da sílaba inicial na musica extrema.

ouvi as canas submetendo-se ao vento
a tarde fica tão gentil e elegante no teu vale


algures quero ainda viajar
quando os teus mamilos ganham a forma
das rolas de chocolate e gelo frágil
que me arrepia como quem regressa à
terra para comer as raízes

José Gil

Ode




À Maria, à Sónia, à Cissa, à Aminar,à Rita, à Eliane, à Lynn

o orvalho é o frio da ode pela manhã
nos sinais do desejo e uma aparição doce
onde o mel do fogo se dissolve no açúcar
dos teus mamilos redondos em grandes
momentos de uma madrugada em beleza
nos morangos de um diário vermelho e vão
do coração de Monsanto para melros e mochos
para uma escrita leve na musicalidade
do rio que toca o céu extremo .Teu corpo
invento nas metamorfoses onde perde
os seus limites vegetais até à fronteira do belo.

o orvalho é lento do rio da ode da manhã
habita contigo o luar e de azul vestida
e descalça no lugar da estrela d'alva
onde beijo o teu vestido esvoaçante
o teu colo acende-se como uma guitarra
para os meus dedos longos acariciando
a tua águia de asas redondas.

o orvalho é o pensamento sem romã
faltam-me os grifos e as gralhas
do acto natural do ritmo do mar
nas tuas pernas a ferver onde
se move a curva oposta no fim
da onda ,quero espraiar-me como
numa intuição grega no recurvo
das ondas em direcção ao infinito
o prazer é inatingível na experiência
mística no espaço do fruto marítimo.

o orvalho é a boca que abre-se nos teus lábios
para ter o lugar do espumante da alma para
regressar forte ao colo das tuas pétalas
sem perder um texugo selvagem.

José Gil
Barcarena - 19-07-05