Thursday, July 28, 2005

Viagens IX

A MENINA DO CARROCEL

A Wensceslau de Morais (1854-1929)

danço azul a vida desde cedo com Atena
a menina do carrossel frente a Poseidon
o que vem nas ondas dos oceanos estáticos
como os corvos das bandeiras de Lisboa
os cronos das ilhas gregas a Nairobi
sempre quente pela noite adentro com
a minha iguana onde se canta com os filhos
o outro luar no mar - azul - turquesa junto
à aridez das ruínas. Remo no Rio Hozu
nas errâncias de Nagasáqui ao Teatro Díonisio
Brilhantina nem acredita e continua a viagem
do fascínio de Santa Arusi e Santa Atchan
da Torre dos Ventos ao Culto do Chá,
a taciturna da carcaça e da oração no Mosteiro
de Panaya Turliana na lógica perversa do
perfume de um café e do fumo de um Antaño
como Camilo Pessanha e os seus truímos
divinos em pedras frescas de amor.

José Gil
Em viagem

Eis o Meu Pássaro que Fala

eis o meu pássaro que fala
à rama húmida do teu cabelo
gosto de passar o pêssego
de uma mão para a outra
como os teus seios em leves
sinais e segurar a ameixa entre
os lábios, os caroços de ameixas
mordendo os dentes e recolhendo
à água da nascente.

quero-te como a pedra de Fléton
para quem persiste no amor
profundo.

As gaivotas já alinham
na tela da moldura da mesa
encostada ao mar do teu coração
esvoaçante.
os pincéis descansam nas suas
penas e as cores ternas do fogo
beatificam no aroma
de hortelã, o poema

sinto a quente brisa do sul
gosto do chilrear dos pássaros junto
à porta onde te espero
as cerejas já em calda alegram
o que é vivo e luminoso
a alva traz na boca a saudade
das maçãs do teu rosto
angular o teu corpo é redondo
a franja da tua montanha arável
a saia curta, andas e escrevo
sem olhar.

venho de bater à tua porta
ao maior abraço de uma folha
seca até ao berço do nascimento
os meus dias turbulentos inquietam-te
nas açucenas da tranquilidade
sereno passeio nas falésias como
a noite regressa .

os teus olhos têm silêncio, os braços não
das nuvens do meio têm mil águas
em baixo vou contemplando
o meu gosto pelo fruto dos cerais
alegremente confiando no luar
e no seu perfume de flor de manga
Íris desperta em mim as rosas da carne
Vermelhas como as papoilas,
amo nelas o vapor da água
inunda-me os braços e o rosto
humedece as pernas lentamente
do dia do trabalho mais feliz
a iluminação anuncia a espessura
da sílaba inicial na musica extrema.

ouvi as canas submetendo-se ao vento
a tarde fica tão gentil e elegante no teu vale


algures quero ainda viajar
quando os teus mamilos ganham a forma
das rolas de chocolate e gelo frágil
que me arrepia como quem regressa à
terra para comer as raízes

José Gil

Ode




À Maria, à Sónia, à Cissa, à Aminar,à Rita, à Eliane, à Lynn

o orvalho é o frio da ode pela manhã
nos sinais do desejo e uma aparição doce
onde o mel do fogo se dissolve no açúcar
dos teus mamilos redondos em grandes
momentos de uma madrugada em beleza
nos morangos de um diário vermelho e vão
do coração de Monsanto para melros e mochos
para uma escrita leve na musicalidade
do rio que toca o céu extremo .Teu corpo
invento nas metamorfoses onde perde
os seus limites vegetais até à fronteira do belo.

o orvalho é lento do rio da ode da manhã
habita contigo o luar e de azul vestida
e descalça no lugar da estrela d'alva
onde beijo o teu vestido esvoaçante
o teu colo acende-se como uma guitarra
para os meus dedos longos acariciando
a tua águia de asas redondas.

o orvalho é o pensamento sem romã
faltam-me os grifos e as gralhas
do acto natural do ritmo do mar
nas tuas pernas a ferver onde
se move a curva oposta no fim
da onda ,quero espraiar-me como
numa intuição grega no recurvo
das ondas em direcção ao infinito
o prazer é inatingível na experiência
mística no espaço do fruto marítimo.

o orvalho é a boca que abre-se nos teus lábios
para ter o lugar do espumante da alma para
regressar forte ao colo das tuas pétalas
sem perder um texugo selvagem.

José Gil
Barcarena - 19-07-05

Sunday, July 10, 2005

Húbris





Sentir é escrever nos trilhos da tessitura do texto
Viajo na Albufeira da Fragueira entre um prato
de barbos em fragas varridas pela nortada
o poema é uma onda, o último rio selvagem
à procura da águia-real e do lobo, na húbris,
do poder pânico da natureza, as suas águas
correm rebeldes entre os bosques, no mais
profundo caos filtrado de vapores do rio Sabor
desde a serra da Parada aos sobreirais, aos azinhais
entre maciços de granito até ao gesto da vaga que
se espraia numa elisão dos teus lábios escaldantes.

A Serra de Montesinhos , Vila Flor, a terra de
Moncorvo, os zimbrais de um Deus para os
habitantes de Felgar com um buxo.1


a onda avança , recurva e sobe até à crista
da Ponte da Portela. Há traços de Paisagem
nuvens que passam no Pathos, cegonhas,
águias de Bonelli , numa atmosfera sensual
para o abutre do Egipto como nos rituais
do Samurai em galope veloz dos arqueiros
nos seus sonhos sensoriais, como a toupeira
da água tem uma seta para rezar à paz
dos Deuses pela chuva e pela boa colheita
pelo gato-bravo e pelo corço no alastre final,
do ritmo do mar, sempre a pulsação das ondas
e das marés, aí procuro a harmonia e a melodia
como nas gravuras rupestres , toda a pureza
desta visão, técnicas de aderências por séries
de imagens e metáforas do paleolítico e do
neolítico, em Cilhades, na passagem da poesia
à musica, à dança total , o movimento
rítmico natural.

Nas pontes de Remondes na segregação das
Sensações até ao Santuário de S. Antão da Barca.
Onde é que estão os produtores de tâmaras que cultivam
longe formigas carnívoras para comer formigas?
herbívoras como Nepenthes. 2
a inveja é humana?
como uma armadilha “passiva” .Tudo está já vazio
como no vácuo, na ruptura entre a ordem divina
e a existência humana, Édipo e Antígona nas utriculárias
plantas aquáticas sem raiz como os poetas, como o
ciúme doentio e a mediocridade que destrói os países.
Numa sensação bruta de insectos gigantes e de crustáceos
laposos assemelhados a uma medusa no país das libelinhas..

Viajo de novo das turfeiras às charnecas, Drosera
Rotundifolia, as orvalhinhas no caminho da lança
Sagrada dos Deuses Supremos, impressões de cor
Num exercício religioso e de uma oração contra
A guerra e o poder a vida é oca, a alma é oca,
Herdamos de Esquilo e Sófocles o destino inexorável
das tragédias dos animais em extinção.
A ruptura do homem com a natureza é visível na
Catarsis contra o polvo de três corações e duas memórias
na aurora polar. Paisagens, estados de alma nas tapeçarias
do escrito na fragrância, no texto atmosférico em que
o cavaleiro perde o próprio castelo em levitação
perde a própria espada na desmetaforização de quem quer
casar apenas com a “noite eterna quando ela enviuvou
do caos que nos procriou “(3) na paleta do espaço real
nas linhas que nos conduzem ao intimo da sedução cristalina
no limitado que purifica o ilimitado na derelicção e no exílio
da ordem do mundo para que o “destino , a conduzir a
carroça de tudo pela estrada do nada”(4) na catástrofe
dos sentidos, no trágico que outras naturezas inauguram
a fuga humanista na entropia finita, água, ar, terra, fogo.

quero ainda ver, ver para além das novas fronteiras
onde Deus escondeu-se no acmé do instante dramático
minha vida é andar na cisão do caos na cissiparidade
do abismo da luz.

José Gil
Praias do Sado



1 madeira macia
2 planta carnívora
3 PESSOA, Fernando - Livro do Desassossego. Lisboa: Ática, 1982. p. 162
4 Álvaro de Campos

José Gil
http://dialogosdogil.blogspot.com/

Saturday, July 02, 2005

Moinho de Maré I

M O I N H O DE M A R É

o cavalo numa dualidade alcoólica
entre o medo e a alegria, os moinhos
e o amor.

num aeródino veremos o azul do mar,
o verdeda floresta e
o vermelho do deserto.

subiremos amor a Ayres Rock
ou à Serra de S.Mamede

voaremos das margens do rio Tibre
num poema acústico a cantar a verdade
em Hurghada no Egipto
e voltar ao Moinho da Maré
de Amora.

José Gil

em viagem
José Gil

Espargomania

ESPARGOMANIA
ao J. Amor

Platão é que enaltecia os espargos
espargos brancos e simples no azeite
como os teus cabelos ou em mel
nos teus mamilos.

na clareza da harmonia sou um
espargomaniaco "spargel pilgerfahr"

vou até ao cais ou à casa da poesia
na Alsácia em Freiburg, espargos
na brancura da madrepérola
como a tua pele translúcida
de princesa.

vou colher os espargos ao luar
como o teu olhar no universo
diferente onde se cruzam na
arquitectura dois lugares
internos .

está Lisboa de sol do dia.
na composição do movimento puro
nós de densidade e implicações
em andamentos graves.

José Gil
No Maior Rio

Moinho de Maré II









Moinho de Maré II

quem te vê, vê na Cotovia
no Convento da Madre de Deus
da Verderana, no parque
ribeirinho do Seixal
nas barragens do funcho
e da bravura

O teu olhar é como a pedra solta
da muralha no moinho de maré
do cais das Falnas em seis
rodízios.

quem te vê, vê na Igreja de
Santa Maria do Castelo.

és o orago, no lago e
nas palmeiras procurando
o minimo avanço possível
da água até à estátua de Kudu.

nos espaços perdidos da Gambia
e do Farilhão, aldeias de Madeira
nas Praias do Sado ou no Parque
vermelho de Albarquel.

comeremos amor, um queijo
de casca fina e macia
cor amarela -palha de pasta mole
amanteigado no teu corpo
de amarelo - ráfia.

Como as nuvens no céu
o amor já lá estava
naquele jardim de rosas
até na entoação da frase

"as clareiras onde queimam
as árvores"

peço aos homens comuns da terra
um mandato do céu.

José Gil
Alcochete