Sunday, July 10, 2005

Húbris





Sentir é escrever nos trilhos da tessitura do texto
Viajo na Albufeira da Fragueira entre um prato
de barbos em fragas varridas pela nortada
o poema é uma onda, o último rio selvagem
à procura da águia-real e do lobo, na húbris,
do poder pânico da natureza, as suas águas
correm rebeldes entre os bosques, no mais
profundo caos filtrado de vapores do rio Sabor
desde a serra da Parada aos sobreirais, aos azinhais
entre maciços de granito até ao gesto da vaga que
se espraia numa elisão dos teus lábios escaldantes.

A Serra de Montesinhos , Vila Flor, a terra de
Moncorvo, os zimbrais de um Deus para os
habitantes de Felgar com um buxo.1


a onda avança , recurva e sobe até à crista
da Ponte da Portela. Há traços de Paisagem
nuvens que passam no Pathos, cegonhas,
águias de Bonelli , numa atmosfera sensual
para o abutre do Egipto como nos rituais
do Samurai em galope veloz dos arqueiros
nos seus sonhos sensoriais, como a toupeira
da água tem uma seta para rezar à paz
dos Deuses pela chuva e pela boa colheita
pelo gato-bravo e pelo corço no alastre final,
do ritmo do mar, sempre a pulsação das ondas
e das marés, aí procuro a harmonia e a melodia
como nas gravuras rupestres , toda a pureza
desta visão, técnicas de aderências por séries
de imagens e metáforas do paleolítico e do
neolítico, em Cilhades, na passagem da poesia
à musica, à dança total , o movimento
rítmico natural.

Nas pontes de Remondes na segregação das
Sensações até ao Santuário de S. Antão da Barca.
Onde é que estão os produtores de tâmaras que cultivam
longe formigas carnívoras para comer formigas?
herbívoras como Nepenthes. 2
a inveja é humana?
como uma armadilha “passiva” .Tudo está já vazio
como no vácuo, na ruptura entre a ordem divina
e a existência humana, Édipo e Antígona nas utriculárias
plantas aquáticas sem raiz como os poetas, como o
ciúme doentio e a mediocridade que destrói os países.
Numa sensação bruta de insectos gigantes e de crustáceos
laposos assemelhados a uma medusa no país das libelinhas..

Viajo de novo das turfeiras às charnecas, Drosera
Rotundifolia, as orvalhinhas no caminho da lança
Sagrada dos Deuses Supremos, impressões de cor
Num exercício religioso e de uma oração contra
A guerra e o poder a vida é oca, a alma é oca,
Herdamos de Esquilo e Sófocles o destino inexorável
das tragédias dos animais em extinção.
A ruptura do homem com a natureza é visível na
Catarsis contra o polvo de três corações e duas memórias
na aurora polar. Paisagens, estados de alma nas tapeçarias
do escrito na fragrância, no texto atmosférico em que
o cavaleiro perde o próprio castelo em levitação
perde a própria espada na desmetaforização de quem quer
casar apenas com a “noite eterna quando ela enviuvou
do caos que nos procriou “(3) na paleta do espaço real
nas linhas que nos conduzem ao intimo da sedução cristalina
no limitado que purifica o ilimitado na derelicção e no exílio
da ordem do mundo para que o “destino , a conduzir a
carroça de tudo pela estrada do nada”(4) na catástrofe
dos sentidos, no trágico que outras naturezas inauguram
a fuga humanista na entropia finita, água, ar, terra, fogo.

quero ainda ver, ver para além das novas fronteiras
onde Deus escondeu-se no acmé do instante dramático
minha vida é andar na cisão do caos na cissiparidade
do abismo da luz.

José Gil
Praias do Sado



1 madeira macia
2 planta carnívora
3 PESSOA, Fernando - Livro do Desassossego. Lisboa: Ática, 1982. p. 162
4 Álvaro de Campos

José Gil
http://dialogosdogil.blogspot.com/

2 Comments:

Blogger gloria said...

Hola, Gil

Este teu Húbris é mesmo um poema para se ler e cogitar, inúmeras vezes.

Fiz um comentário anteriormente e faço agora um segundo, sob outro ponto de vista. Depois me diz o que te parece, ok?

Bem de acordo com o novo paradigma não cartesiano, revela um modo de olhar e de estar que admite a coexistência de opostos.

E a meu ver reflete, também, o teu transitar bem confortável e muito à vontade pelas duas artes – teatro e literatura – integrando-as, através da fabulação, da fascinação pela concomitante existência do falso e do verdadeiro, pelo que pode ser realisticamente encenado.

É um poema que expressa um interessante percurso entre a intimidade e a ficção, entre a onipotência da fantasia e a impotência frente à grandeza absoluta do cosmos universal, que nos faz relativizar nossas verdades.

Sim, Gil, “Herdamos de Esquilo e Sófocles o destino inexorável das tragédias dos animais em extinção” e, embora lembremo-nos que somos mortais, somos frequentemente tentados a nos insurgir contra os limites impostos pela natureza: precisamos transgredir e o fazemos de maneira irreverente, insolente, por vezes arrogante (hubris).

Teu poema espelha um mundo que aí está para ser provado, degustado, procurado, desejado, onde possamos querer e desejar para além das fronteiras, numa fricção definida pela tragédia grega: "hubris" (arrogância), "ate" (loucura) e "nemesis" (destruição)".

Contudo, se a essência da tragédia grega foi o reconhecimento de que existem forças dentro da cultura, ou dentro de nós, que nos levam a escolhas através das quais outros podem sofrer, também podemos nos redimir através do nosso próprio sofrimento (quando instaura-se a culpa), havendo possibilidades de reparação e reconciliação.

Aliás, já não era essa uma das funções do coro? O reconhecimento, a penitência e a reconstituição do relacionamento correto com os deuses? Assim me lembro...

E, enquanto tal não ocorre, a danada da culpa senta-se como um grande pássaro negro nos ombros de quase todos nós. É a “sombra”, tão falada por Yung, pintada, escrita, tocada, enfim, representada através da arte, nos fazendo lembrar da nossa participação no proibido, do nosso egoísmo, narcisismo e covardia.

Mas, afinal, “somos humanos e nada que é humano nos causa estranheza” - diz Terêncio em "Ego sum humanum. Nilail a me humanum alienum" -, não é mesmo?

Portanto, apesar de andarmos como que na linha divisória entre o "abismo e a luz" , há que prosseguir e desejar ir além, como vc bem diz nos últimos versos:

"quero ainda ver, ver para além das novas fronteiras
onde Deus escondeu-se no acmé do instante dramático
minha vida é andar na cisão do caos na cissiparidade
do abismo da luz."

Este é um poema dos deuses, parabéns!

E obrigada, por cada vôo...

beso
y cariños,

sonia

1:17 AM  
Blogger de ossos e escritas said...

Belo Poema!

3:02 PM  

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