Tuesday, September 13, 2005

o leitor

O LEITOR, O DESVIO E O SEU MAPA


“A dança, não vos dará nada em troca, nem um manuscrito a pôr de lado,nem um quadro para pendurar, nem poemas para imprimir e vender. Nada que não seja este instante único, fugitivo em que se sentem os vivos”
Mercê Cununnighan

passam as águas, deixam as portas abertas, onde
oiço o crescer dos sobreiros e guardo as margens
do papel para as dúvidas e tomo o Lugar (ou ganho
o juízo!) aqui no sótão da minha casa na Estefanilha
as amoras crescem em segredo no bosque próximo
e ganho o regador das plantas (a couve,o chá,o milho
a rosa),o telado sem um mastro central e um lençol ao
vento com o desenho bordado do meu corpo deitado
na arte da ocorrência, da sombra e do espelho negro
resta um leitor, um desvio e um mapa desactualizado
o onamismo dos diários íntimos e providenciais.


o leitor morde a desconstrução ,a reversibilidade
do movimento em espelho pintado de amarelo,
pela manhã,com um cavalo creme e branco,
momentos sagrados do acaso, para dançar sobre
um lago sem cisnes directos e o aquecimento global
a escalar ao longo dos muros, com a sombra do perfil
dio viajante como um sopro, um fluxo, o peso-leve
infiltrado no traçado dos carris da linha, os dois pés
bem no chão, nós não somos sempre o(s) mesmo(s)
num cenário vivente ,amamos o rebelde dos subúrbios
como um animal onde encontramos a nossa habitação
universal – “está-se bem!” –quando o leitor constrói
o outro poema.


JOSÉ GIL

Monday, September 12, 2005

A RAIZ

A RAIZ

ergueu-se a raíz
limpida e núa
a única possível
para a clara a alma
justa e transparente

raiz quente da terra
sem névoa no dia dos
abraços nos
braços do saxofone
da alma certa
sem pendulo nem
relógio. apenas
a música no centro
da vila e um berço
re-encontrado.

do mosteiro falará
a verde memória do
futuro,um anjo azul

o do dia de pedra no lugar
de pedra do adro da Igreja

e as pessoas quentes
no silêncio do acaso

uma varanda,uma mulher
a descrição das outras
manhãs longe do mar
na floresta profunda
dos sentimentos.

com a alma na mão
abrem-se os caminhos
a música constroi
um novo encontro
com o sol

jose gil

Sunday, September 11, 2005

rua das pedras

VIAGENS XXII - rua das pedras

Retrato de Salvador
Kittuit

“apressa-te lentamente”
Augustus, imperador romano

O folião é o sol a pino, passam verdes os ventos
onde ogan avança com a candura de um amor feliz,
na malha metálica em escamas preso aos quadris
em frevo no terreiro Oxum, Orixá o feminino das
fontes e dos rios por dentro do nosso oceanário.

As magnólias tocam o meu odor de pele lisa.

Vestido de abada oficial todo o ano para esbardar-se
nos trios eléctricos a comer acarajá de feijão frade
frito em dendé, um rectângulo de camarão e vadá

A viagem começa numa onda de batidas em
caixas de som e luz na fresca água da chuva e das
nascentes entre os pipocas e os cordeiros no eclipse
anelar do sol, sinto-me lansã, chega-se na encarnação
no bosque de tempestade, dos raios e dos ventos
na ausência das gaivotas

Avanço voluptuosamente e deslizo cruzando a água
de suor na praça da hortelã nas orelhas cantando
“Chuva, suor e cerveja” nos seus olhos cor de mel
lançando os búzios no seu colo conservando
o futuro dos oceanos como a dor dos solos secos.

Pedra Angular

Pedra Angular

Abre-me as portas, e as janelas do teu corpo
nas várzeas onde nasceu a sombra
sílaba a sílaba nas amoras constrói a dança
nocturna das flores como uma retórica
de atrito por uma poesia liquida,murcham
as flores pela manhã, no frágil num continente
à deriva na geografia do coração, ajuda
a caminhar o caminho para a
Marrié de Duchamp, a habitação dócil
que o novo corpo ergueu, a caliça
ainda fresca dos muros dos sentimentos
da tua pele, para o traço grosso do
nível erótico no desenquadramento da
emoção, pedra a pedra .

serenamente cria a luz instável das aves
a dança pós-moderna do poema no eclipse
do sol do teu estar até que a mão toque o chão.
” Toda a coisa recebida deve ser acrescentada”(1)
o movimento que já vi, a impossibilidade
de escrever o que vivi em diagonal rápida
numa estratégia compositiva da água da alma.

deixa-me entrar no teu corpo, o ser das
sombras, o umbigo verde e prata a pensar-se
instável no berço estreito que me pedes.
um piercing de Rodim, onde o vento rosa
esculpiria melhor o tempo rente à terra
como um inato das metáforas pesadas na rede
dos fios das meadas na gestualidade e
no vocabulário da tua avo – uma bailarina
entre o chão e o céu como Pina Bahus
na fonte vazia da constelação das pétalas
de uma buganvília na caravela rasa no
oceano dos verdes estridentes .

José Gil

INVENTÁRIO

INVENTÁRIO

a caliça vermelha e negra dos muros dóceis,amor
na árvore sensual e branca do universo,à noite
borda o humanismo justo.

José Gil

Cae Água

Cae Água

Ergui a casa contra o pó das orelhas na pulsão
do meio interior, a música transparente
do tronco da ternura fresca.

trabalho o sonho de um cavalo pintado
em S.Pedro do Estoril na anusia da
metamorfose pulsional onde evoca
a doçura da voz apriórica.

José Gil

poema de domingo

POEMA DE DOMINGO

Ao Félix

o café desce com vergonha, a rua
negra e o alcatrão de açúcar
pigmentos do mesmo tipo
que a textura de domingo

passa a varina de verão
traz os peixes solares
água, prata, algodão
toda a páscoa a ressurreição

saem da cave metamorfoses
dos lugares onde a fruta
se encontra novamente
com a terra num elefante
que ninguém quer decifrar

todo o céu te espera
todo o mar farta o fim
todos somos o abraço que falta
todo o ar se abre na água

José Gil / Constantino Alves

um titulo é outro poema

um titulo é outro poema

havemos hoje de ir ao mar
um titulo é outro poema
uma mensagem nasce na
maré mais solta que uma onda
de terra, a outra invade a rocha
e perde-se.

a cortina abre o teatro
o teatro é a perna e a mão
uma rosa perfilha um cravo
os passos dão-se lentos
como se dá o pão

jose gil / constantino alves

pomba

POMBA

o livro é o inicio da pintura
e uma sala plena de canetas
a musica, sempre alta
todo o som, toda a sala

posso sorrir ,a canção abafa
o próprio murmúrio de quem
está a sonhar.

na sala só livros,livros só,
eu sei que é pouco.ainda resta

uma pomba e um ponto final.

constantino alves / josé gil

o mar preso na liberdade

o mar preso na liberdade

Qual a luz que ilumina a parede?
Qual o disco que toca na sala?
Qual a palavra da boca rubra?

Qual a parede onde descanso
onde o musgo faz a História?
Qual a musica que a invade
da luz para a boca repetir?

Um lugar para o carro
outro para a ilusão

Uma gávea salta no barco
é o mar preso na liberdade
toda esta manhã é de chamas
toda a noite corre na água
até saltar o verbo amar

José Gil/ Constantino Alves

UMA MANHÃ

UMA MANHÃ

as aves brancas atravessam o brilho
no metal da manhã bate a luz no espelho
a chávena chega com grãos de letras
uma bica é um quarto, sala, cozinha
e wc na minha cabeça a cartola.

uma língua uma palavra.

um aperto de mão, uma fragrância
uma sólida construção.

habitamos devagar os lugares marcados
como mapas terrestres onde o dia azul
faz-se tempo e avança os caminhos.

viajo até que o sol se esconda
na rua mais clara da cidade.

CONSTANTINO ALVESJOSÉ GIL

VIAGENS XX - MARÉ NOSTRUM

VIAGENS XX - MARÉ NOSTRUM
Ou a traição da palavra



na carne o cume é o sol da palavra o território
é o teu corpo vivo em construção, o rosto rente
ao Caramulhinho em Viseu, por aqui a inútil
paisagem das canetas, dos livros e da mesa plana
para o amor sobre a madeira doce.

os pássaros coloridos de Óbidos cantam em limum
nos pomares do erótico junto à casa azul na árvore
perto do cabeço da neve numa fonte de deleite para os
Túrdulos “sunshine on your love”(1) na voz de Elsa
Fuiltzgerald que invade as curvas a seguir a Linhares
num tempo fértil para as estátuas de granito o meu
solo de violino num universo esmorecido desenho
fora do desenho num minimalismo repetitivo de um
octeto entre linhas na acidez da aparência visível
nas tuas pernas de serpente esmeralda no vento
a uivar a linguagem e outra humildade de recursos
uma romã a ferver nos cantos dos rituais dos monges
shinto e das suas batidas de flautas shakuhachi.

esqueço que os dias têm horas, beijo-te boca em boca,
no terreno fértil para as” memórias de pedra – tempo
caído”(2)na cápsula do vento no outro lado Alpedrinha
desde o chão até às ameias dos castelos casas frágeis em
cima de rochas num processo de discurso poético perto
da raia .uma obra desejada nos prazeres da balada da vida.

voo nas escarpas da serra, perto da antiga Egitânea junto
ao Tejo em Vila Velha de Ródão com as cerejeiras em flor
até á Guarda e escrevo-te na Rua do Amparo para a cantaria
do teu olhar na linguagem outra que a tudo obedece
pela unidade da textura. até à erosão das imagens
na praia da Aldeia Ruiva,um horizonte de escassez palavras
escritas no relógio solar do teu peito, três rosas depois
da chegada tudo é único num ritmo de saída para a
essência da lâmina no “ceptro de aerzis”(3) - ailura a rainha
da terras dos negros de luz na corporalidade de um “mar de
leite”(4) para as atmosferas de Ligeti onde viajamos pegadas
raras à mostra na arriba perto dos mamilos e da língua sem
respiração e ar no lentissimo amor. Vamos.

José Gil



(1) dos Cream
(2) Paulo Ribeiro
(3) Inês Botelho(4) José Saramago

RÉDEA SOLTA

RÉDEA SOLTA
OU ENTRELINHA

"(…) em vez da imagem
ter sempre uma imagem de fundo
e da arte(…)rivalizar com a natureza
todas as imagens nos reenviariam
para uma só a do meu olho vazio(…)"

Gilles Deleuze

a água é bonita ao ser atravessada pela luz, ouvem o wolkman
nos ouvidos para se isolar .sinto que vivo sem viver em mim
enquanto escrevo no café a olhar de soslaio
entre um pão com canela e chá de cidra
liberto-me pela escrita entre o ponto e a linha
numa teia de modus faciendi procurando fios
nos caminhos íntimos, plurifacetados na aparência
do vizinho, a língua como rosto,o corpo fala
e é falado num travelling ensombrado
de águas silenciosas para um poema diagonal
à memória apagada ou ao que dela perdura
escrever uma linha é ter uma ideia(1)
nas centelhas do acaso para uma fuga de joão sebastião
bach, uma escrita directa
em esboços à rédea solta como hiperónimos
e hipónimos, seres cindidos no mar da literatura
ineficável para romper os limites pictográficos
como antóninos e sinónimos, o tecido de uma lógica ofensiva.
o poema tem que nascer em qualquer lugar na representação controlada ou aberta
agora é que chegou a minha alegria, o novelo entre a acção
e o pensamento crítico “a cidade das flores”(2) palavras - paredes de água(3)
contra um pensamento plástico que desafia o leitor nas aparições, nos espectros e nos espíritos “a dor define a nossa vida toda”(4)
como nerónios e holónimos da felicidade desejada pela humanidade
ao pé do chafariz de dentro, como uma voz interior na terra do pó
e da pedra nas agruras das curvas dos rios para desenhar as estradas
do futuro só o amor num deserto tão movediço
no mar de néons da grande lisboa
a ver de minha sala.


José Gil

Grande Lisboa 9 de Setembro 2005:23:00
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(1) adaptação livre de uma frase de Richard Sena
(2) Augusto Abelaira
(3) Ana Drago
(4) Caetano Veloso


José Gil
http://dialogosdogil.blogspot.com/