Sunday, September 11, 2005

RÉDEA SOLTA

RÉDEA SOLTA
OU ENTRELINHA

"(…) em vez da imagem
ter sempre uma imagem de fundo
e da arte(…)rivalizar com a natureza
todas as imagens nos reenviariam
para uma só a do meu olho vazio(…)"

Gilles Deleuze

a água é bonita ao ser atravessada pela luz, ouvem o wolkman
nos ouvidos para se isolar .sinto que vivo sem viver em mim
enquanto escrevo no café a olhar de soslaio
entre um pão com canela e chá de cidra
liberto-me pela escrita entre o ponto e a linha
numa teia de modus faciendi procurando fios
nos caminhos íntimos, plurifacetados na aparência
do vizinho, a língua como rosto,o corpo fala
e é falado num travelling ensombrado
de águas silenciosas para um poema diagonal
à memória apagada ou ao que dela perdura
escrever uma linha é ter uma ideia(1)
nas centelhas do acaso para uma fuga de joão sebastião
bach, uma escrita directa
em esboços à rédea solta como hiperónimos
e hipónimos, seres cindidos no mar da literatura
ineficável para romper os limites pictográficos
como antóninos e sinónimos, o tecido de uma lógica ofensiva.
o poema tem que nascer em qualquer lugar na representação controlada ou aberta
agora é que chegou a minha alegria, o novelo entre a acção
e o pensamento crítico “a cidade das flores”(2) palavras - paredes de água(3)
contra um pensamento plástico que desafia o leitor nas aparições, nos espectros e nos espíritos “a dor define a nossa vida toda”(4)
como nerónios e holónimos da felicidade desejada pela humanidade
ao pé do chafariz de dentro, como uma voz interior na terra do pó
e da pedra nas agruras das curvas dos rios para desenhar as estradas
do futuro só o amor num deserto tão movediço
no mar de néons da grande lisboa
a ver de minha sala.


José Gil

Grande Lisboa 9 de Setembro 2005:23:00
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(1) adaptação livre de uma frase de Richard Sena
(2) Augusto Abelaira
(3) Ana Drago
(4) Caetano Veloso


José Gil
http://dialogosdogil.blogspot.com/

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