Sunday, October 02, 2005

Lusco - Fusco

“Rien n’est beau que le vrai, le vrai seul est aimable”
Boileau

Duelo epistolar ao lusco – fusco
À flor do esquecimento do ser
No limbo do fim da história
Em glória e esplendor nos
Decassílabos justos para a
Construção do pequeno
Templo. Só a loucura
É desprovida da palavra
Do ser esquecido nas vozes
Do deserto, no medo divino da
Fuga diária do planalto do poema
Quem quer ficar vazio sem o lusco
Fusco na sua tenaz marca poética da
Trópologica até que uma nova palavra
Entre nas ideias claras para o diamante da voz
Na sordidez do matagal da pedra azul para estilhaçar
A cortina da habitação do dia a dia. a manhã virá logo
José Gil

party on line

A Palavra Antiga

“no fundo aceitamos que nada temos que se encontre fora de nós próprios”
José Maria Garcia López


atravessa-ma a música do Paris Texas
um holograma de superfície clara
da escrita branca no hybris grego
quando chego forte ao mar e
me passeio no barco negro para
ver a elegância dos cavaleiros
do Nilo os mamelucos

ao som do arrabil e da viola
comendo em louça de Arezzo
e a beber vinho de Falerno
em busca de saphira e dos
actos da fala, nas centelhas
de Deus um exegeta do Talmute
caído no ponto mais ínfimo
com a canção de Leonardo Cohen
“Take this halls” na parábola judaica
Onde está tudo iluminado no
Gelo marítimo da Árctico no
Teu colo quente.

Saturday, October 01, 2005

Poemas do Baú

SEM TITULO I


deixa amor a mão caminhar
como um diamante de carne
muitas vozes juntas
para que algo aconteça quando
tudo fica de coração incompleto
o ar está cada vez mais leve
o amanhã é um desejo e por isso demora
Mar eu queria ser o mar e chorar como ele
bem dito o céu e o fado minha
é apenas a ave
e o ser dela as lágrimas das asas
seguram o azul no céu.
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Planura

o lábio é azul e creme sobre a areia fina
dos seios como a onda em três andamentos
um eixo redondo nas pontas
da maré. o movimento da ode a arder
confunde-se no pêndulo em crescendo, a água
espessa da solidão. Cristalina é para penetrar,
os morangos vermelhos caindo sobre a água
em lágrimas de alteridade feliz. Minha vida
é andar nos labirintos, eu sei por onde passo.
A vida encadeia-se em linhas melódicas
Viajo na consciência com a beleza de Vénus

Nas curvas redondas dos dedos e da língua.
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Ramais de cristal

Ao Constantino e ao Evónio


nesta balsa encontrei um búzio no meio
das ondas violentas mesmoao longe belas
são as montanhas até à parte mais distante
da terra lancei para lá o búzio como a noite caiu
nas escarpas inclinadas tão de repente e antes
que as águas alaguem a balsa. entrei na praia
rodando o corpo para dentro de mim, dentro
da minha idade quando já nem consegui pensar
e a voz do mar inundou o búzio
até ficar em pérola a voz mais pura dos poetas
nas mãos da terra leve para lavrar os sinos e os
torrões trabalhados no aço no fundo do torpor.
quando as árvores já nascem das mãos raízes
brilhantes e de púrpura do colo até aos dedos
como ramais de cristal e unhas
de romã, as tuas mãos tocam nas minhas espalham
em rede,espelham no céu o fogo das entranhas
perdidas nas estrelas de nuvem em nuvem onde
brilha a água pura. o silêncio dos homens à beira do ar.
a mão e o clarão da boca tocada por outra boca e os
dedos molhados na bárbara garganta e da esguia língua
que encontra as suas esmeraldas líquidas.

não escrevas sobre as aparências apenas
iluminamo essencial, mergulham no cata-vento
da superfície

só os cegos à noite podem receber a vibração
das essências onde as trevas são espasmódicas
geografias da pulsação no excesso da seda do tacto
mais invisível saltam pássaros do copo de água pelo lado febril
da mão que o segura, subo e desço na garrafa
da flor de anis transparente para todas as inspirações
os cavalos atravessam a folha suave, onde escrevios primeiros
versos na balsa da infância onde
as águias atravessavam o ecran e as projecta
no néon do modelo das searas.o perfume da flor de anis
fala como quem diz alma e a alma fala do seu próprio incêndio
para dentro onde toda a sua aprendizagem é tranquila como
a beleza eu jogo e jogo e estremeço, esqueço as coisas mais
evidenteso lugar da casa, o nome da mãe, o sinal do filho,
o assobio do pai, a música dos sinos da aldeia, o silvo do túnel
da fábrica

sobretudo o som infantil do mar.
dói-me o esquecimento como os ossos dos pés
é terrivelmente profunda a dor à boca da noite
o escuro estrutural da tardinha, quando já não
sei escrever o nevoeiro da manhã, face a face
com deus e os gritos e os grifos. o mundo é
a máquina dos poemas. o texto nasce à volta redondo
universo como a lembrar-me mãe, nasci uma quilha
de pássaro no peito. ainda vou voando, o ninho
ficou pequeno. ando de bicicleta nas pistas de alcatrão
verde. mordo os dedinhos brancos do mês na balsa
salvei-me e comi a última laranja do estio dos homens
as tuas pernas sensuais de mármore e o búzio do teu umbigo
sabe a mar tem o aroma do dia derretido na areia como
aroma das turfas e das açucenas da memória delicada.

Setúbal, 20 de Julho 2002
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Moinho de Maré II

quem te vê, vê na Cotovia no Convento da Madre de Deus
da Verderana, no parqueribeirinho do Seixal
nas barragens do funcho e da bravura O teu olhar é
como a pedra soltada muralha no moinho de maré
do cais das Falnas em seis rodízios.

quem te vê, vê na Igreja de Santa Maria do Castelo.

és o orago, no lago enas palmeiras procurando
o mínimo avanço possívelda água até à estátua de Kudu.
nos espaços perdidos da Gambia e do Farilhão,
aldeias de Madeira nas Praias do Sado ou no Parque
vermelho de Albarquel. comeremos amor, um queijo
de casca fina e maciacor amarela - palha de pasta
mole amanteigado no teu corpo de amarelo - ráfia.
Como as nuvens no céu
o amor já lá estava
naquele jardim de rosas
até na entoação da frase
"as clareiras onde queimam
as árvores" peço aos homens
comuns da terra
um mandato do céu.

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Matriz

No elocutio és o romanesco da romã
na trave o louro e a candeia, a nostalgia.
Situas-me no ajustamento das palavras
como uma matriz risível de mãos ausentes.
A presença das lágrimas na devastação
da angústia. Provoca a vertigem invisível.
Há um soluço por cada pesadelo.

O pathos é o patético sentimental.

A intensidade textual das esculturas
de agnórisis como um pastor da vereda

és a fábula teatral e suprema
quando a expiação do dia
confrange. Há chagas deste tempo.